sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Para não dizer que eu não falei das flores II

   Minha avó não sabia nada muito além de escrever o próprio nome, quantos ovos leva um bolo e o que vem logo depois do A. Mas ela tinha a sabedoria do olhar (são poucos os que têm). Durante as nossas longas viagens de carro ela sempre encontrava os ipês em flor.
   Era no meio da imensidão verde quase morto de frio da serra que ela via cores que ninguém reparava e acolhia as mais singelas margaridas que sempre lhe pediam alguma caridade. E assim eu ia apendendo só de olhar, minha avó quase não falava — chorava bastante, mas isso era um segredo dela.
   Raramente o sol e o Rio juntos permitem caminhadas, mas vem chegando o aniversário de dona E. e tudo parece ficar mais sóbrio, talvez de luto, talvez vigília. O fato é que nessa época o mundo só é palco nos canteiros onde tenham pequenas margaridas.
  É no sol brando de inverno que eu posso enxergar com clareza. Vejo o que importa: em toda esquina há ipês esplendorosos, que gritam cada vez mais alto entre concretos nadas acinzentados, assustando os caretas — ah, como eu queria que minha avó estivesse aqui pra rir.
   Porém, pouquíssimos são os que enxergam o mais importante: as pequeníssimas coisas que constroem a beleza, os átomos dos jardins, as sutilezas roxas que, junto do oxigênio, fazem a vida possível no planeta Terra.
   Eu não falo muito disso porque é preciso paciência de jardineiro para entender e olhos úmidos para ver; são algumas das muitas coisas que herdei de minha avó, junto do gênio forte e o nariz. Também é comum que eu chore às vezes — mas isso é um segredo agora meu

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

15.07

   O Rio de Janeiro e eu temos muito em comum. Crescemos entre a permanência das montanhas e a mudança do mar. Nos fizemos em paradoxos. Somos tão grandes que mal cabemos em nós mesmos.
   Já fomos rivais. Sempre me foi ensinado como sentar, como sorrir, como permanecer sempre quieta. E essa cidade sempre foi pungente, caótica, livre. Eu somente a olhava pela janela, mas aos poucos me percebia refletida naquela confusão – ou seria a minha confusão refletida?
   Foi numa tarde quando eu atravessava para Ipanema, descalça, que meti meu pé num caco de vidro ainda sujo da cerveja anterior. A dor foi pungente, caótica, livre. Dali em diante eu e Rio de Janeiro estávamos unidas por um pacto de sangue.
   Não importa o quanto as águas de março ou as de qualquer outro mês tentem lavar, sempre haverá um pouco de mim naquela calçada; minha coluna vertebral está fincada no Arpoador: ele é quem me deixa de pé. Minha língua fala a língua do enredo da Portela. Minha carne está misturada aos sobrados do Centro e aos barrancos de uma favela qualquer – tudo prestes a desabar.
   Mas o que importa de mim está bem longe da terra firme – dizem que os capricornianos têm o pé no chão, mas já que nasci no Rio, os meus estão na beira do mar. E a minha alma em algum lugar dissolvida nas profundezas salgadas, longe da Baía de Guanabara. Talvez um pouco mais a Norte, quem sabe mais ao Sul. Vai saber... eu nunca me soube!
   Só sei que um dia vou-me embora. Não sei quando nem para onde. Não é por mágoa nem por dívida – as únicas que já tive estão na Lapa, mas são quitadas quando o tambor soa e os pés ainda estão nas ruas nos primeiros raios da manhã. Se vou-me embora é porque eu nunca coube entre a permanência das montanhas e a mudança do mar.
   Mas eu volto para o lugar que ainda guarde o meu sangue misturado com a cerveja alheia e o asfalto ardente. Volto para minha amiga e confidente, essa cidade que em algum lugar me esconde. Às vezes temos que rodar tanto para nos encontrar bem debaixo de nossos narizes. Um dia eu volto e me encontro aqui.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Abrindo 2015 com chave de alumínio de latinha

   Sempre fiquei muito mexida com Ano Novo. Deve ser porque eu sou capricorniana do dia 15 e a bendita data acaba sempre caindo naqueles dias de inferno astral (que, fora meus irmãos, é o carinha que leva a culpa de tudo que acontece de errado). 
   Mas não é só por isso: fui criada no meio de muita superstição, e, desde pequena, coloco muita pressão na noite da virada, como se tudo dependesse do primeiro segundo depois da contagem. Era sempre como o movimento mais difícil do lago dos cisnes, como a curva mais perigosa da corrida na pista molhada; um errinho, um pensamento ruim e tudo me pareceria perdido. 
   Acontece que no último ano, na virada de 2013 para 2014, eu estava bem mal. E lógico que conforme toda a minha tradição, achei que seria um ano terrível. E, a princípio, foi. Mas não por conta de uma sacanagem dos queridos cosmos ou karma, mas sim por tudo que estava acontecendo dentro de mim – cabia a mim, principalmente, consertar.
   E aos pouquinhos eu o fiz. Não tem data, pois a minha melhora não veio depois de nenhuma contagem regressiva. Mas posso dizer que, entre o inverno e primavera, eu ia junto com as flores, renascendo, mais forte até, longe do calor e da nostalgia que a noite do fim de dezembro pode ter. 
   2014 foi o melhor dos meus piores anos. Na verdade, acho que todos os anos foram bons e ruins, a gente que tende a lembrar do passado mais doce do que ele realmente é. Mas tudo bem, agora é cruzar os dedos e pedir para que esse ano seja melhor, com boas reviravoltas que qualquer estação pode trazer

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje vi um homem morto

   Em algum lugar uma criança que muito chorou finalmente descansa em seu travesseiro molhado de lágrimas, com o coração amarrado. E ninguém saberá. Quem sabe ela própria se esquecerá um dia? Ah, isso com certeza, pois o tempo tudo apaga. Talvez já lhe tenha começado a brotar as sementinhas de poesia e ela tome nota de suas tristezas em um diário; mas não pode guardar a dor num potinho para comparar com as que virão.
   Em algum lugar alguém morreu. Esvaneceu e evanesceu. Simplesmente acabou. E nunca saberei seu nome, se gostava de Pablo Neruda ou se eu poderia amá-lo. 
   Aliás, ninguém saberá seu nome. Não será anunciado nos jornais enquanto as pessoas jantam. De qualquer forma, não dariam muita atenção; estão sempre preocupados demais com seus próprios pequenos e fúteis problemas. Pode ser que ouviriam a notícia com alguma compaixão, alguns franziriam as sobrancelhas por alguns segundos. Mas pouco importa, logo estariam de volta aos seus afazeres, parando às vezes para olhar em volta e verificar se ainda estão vivos.
   Quando eu era pequena, costumava arrancar flores na beira da estrada nas paradas durante viagens de carro para fazer buquês e coroas. Antes mesmo de chegar ao meu destino, elas já estavam murchas; poucos dias depois elas já não existiam mais e mais tarde eu esquecia que houveram flores. E é como também somos, como as flores. Não valemos mais, não valemos menos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Diga xis e me dê um abraço forte de despedida

   Eu tô passando por essas fotos de despedida de fim de ano com uma garrafinha d'água na outra mão pra ver se sara essa ressaca de nostalgia. Sempre tive um problema com essa coisa de dizer adeus, para não falar no meu apego imenso ao presente.
   Acho que isso é uma doença de infância que ainda não inventaram vacina. A juventude é aquela época em que temos pleno fôlego, tempo e caminhos a seguir. Nos sentimos infinitos. É como se o Sol nunca fosse apagar, a Terra fosse eterna e todos os meridianos que traçamos com as nossas andanças sempre fossem encontrar com os de todos aqueles que conhecemos como mundo: com os de nossos pais, amigos e com o daquele porteiro que sempre nos dá bom dia mas nós nunca soubemos o nome.
   O pior de tudo é essa geração que anda sempre com uma câmera na mão pra tentar agarrar o presente a qualquer custo. Acontece que nem o obturador mais rápido consegue prender o milésimo de segundo que amamos e quando revelamos a foto, nos deparamos com o passado. Pior que amar o pequeno presente é amar o vasto e obscuro passado. E acabamos com as gavetas e o chão cheios de fotografias que nos atrasam e, às vezes, até nos impedem de seguir em frente. 
   Somos feitos de carbono e instantes, e para vivermos é necessário o constante movimento, mesmo que este nos traga fadiga, adeus e dor. É assim que tem que ser. E olhando do ângulo certo, até que é bonito assim.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O amor é a luz branca

     É pálido, leve, é apenas um instinto. E nossas pupilas são os prismas que tentam separar as cores, em busca de algum sentido, pois os olhos são pequenos demais para enxergar tamanha grandeza.
     Mas na busca pela razão, podemos nos afogar em loucura: Gatsby sucumbiu à doentia luz verde. Milhões de mulheres caem em abismos sem cor, confusas e envoltas no vermelho intenso de uma paixão. E o pior dos casos: aquelas pessoas que nunca se deixam atingir pela luminosidade; nascem, vivem e morrem na penumbra.
     E também  há aqueles que abrem todas as persianas e chegam a quebrar os vidros. Podem apresentar certo grau de astigmatismo. Não filtram as as cores. Enxergam o amor em sua parcial totalidade. Tendem a ser cegos e felizes.
     Não há caminho certo — nem para o amor nem para nada — os tijolos amarelos são mera convenção.  Esteja de sapatinhos de rubi ou descalça, tudo que pode levá-la são seus próprios calcanhares,  mas não se engane, eles nunca a levarão de volta; da segunda vez que andas por um caminho, ambos estarão mudados. E é aí que está toda a graça. 

(Pra Lara, que com seus sapatinhos vermelhos longe de seus pés, encontra sua estrada de tijolos de uma cor qualquer e atravessa os caminhos que vierem em seu mototaxi, guiada sempre pela sua luz)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Vendedor de Balões-Sonhos


  O vi pela última vez sentado no banco da praça. Já era muito velho e tinha o olhar perdido, sereno. Em uma das mãos segurava vários balões, cheios de cores, e com eles parecia que ia subir aos céus a qualquer momento E ele estava tão leve naquele dia!
   Um balão amarelo lhe escapou e começou a subir. O senhor continuava sentado, calmo, como se nada tivesse acontecido Eu observava o balão subir. E quando ele alcançou um ponto tão alto no céu que cobriu o Sol, estourou. Caiu do céu, então, uma leve garoa solar, que abençoava de luz a mim e a todas as crianças que ali brincavam. Elas não perceberam, mas eu olhava tudo atentamente, enquanto o homem ainda encarava o nada, esboçando doce sorriso, parecendo estar a par de tudo. As luzes flutuavam à minha volta, as crianças riam. Era como ver o mundo pela primeira vez. Senti-me invadida por tamanha felicidade, uma felicidade pura, ingênua. Eu estava tão leve naquele dia!  
   Leve também era o balão que vinha flutuando até mim, com a graça de uma bailarina. O segurei com uma das mãos. O vendedor me observava e fez um gesto para que ficasse com ele. Maravilhada, segurei com as duas mãos minha nova jóia. Era vermelho, mas não doía como normalmente doem as coisas vermelhas; era morno como a manhã.  
   Subitamente o balão estourou e eu olhei em volta, assustada, procurando o senhor. Ele havia estourado. Verifiquei minhas mãos e vi os restos do balão vermelho, e ali, bem no cantinho, lá estava: o olhar sereno do homem. Foi só isso. Foi tudo isso.