sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje vi um homem morto

   Em algum lugar uma criança que muito chorou finalmente descansa em seu travesseiro molhado de lágrimas, com o coração amarrado. E ninguém saberá. Quem sabe ela própria se esquecerá um dia? Ah, isso com certeza, pois o tempo tudo apaga. Talvez já lhe tenha começado a brotar as sementinhas de poesia e ela tome nota de suas tristezas em um diário; mas não pode guardar a dor num potinho para comparar com as que virão.
   Em algum lugar alguém morreu. Esvaneceu e evanesceu. Simplesmente acabou. E nunca saberei seu nome, se gostava de Pablo Neruda ou se eu poderia amá-lo. 
   Aliás, ninguém saberá seu nome. Não será anunciado nos jornais enquanto as pessoas jantam. De qualquer forma, não dariam muita atenção; estão sempre preocupados demais com seus próprios pequenos e fúteis problemas. Pode ser que ouviriam a notícia com alguma compaixão, alguns franziriam as sobrancelhas por alguns segundos. Mas pouco importa, logo estariam de volta aos seus afazeres, parando às vezes para olhar em volta e verificar se ainda estão vivos.
   Quando eu era pequena, costumava arrancar flores na beira da estrada nas paradas durante viagens de carro para fazer buquês e coroas. Antes mesmo de chegar ao meu destino, elas já estavam murchas; poucos dias depois elas já não existiam mais e mais tarde eu esquecia que houveram flores. E é como também somos, como as flores. Não valemos mais, não valemos menos.

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