sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Para não dizer que eu não falei das flores II

   Minha avó não sabia nada muito além de escrever o próprio nome, quantos ovos leva um bolo e o que vem logo depois do A. Mas ela tinha a sabedoria do olhar (são poucos os que têm). Durante as nossas longas viagens de carro ela sempre encontrava os ipês em flor.
   Era no meio da imensidão verde quase morto de frio da serra que ela via cores que ninguém reparava e acolhia as mais singelas margaridas que sempre lhe pediam alguma caridade. E assim eu ia apendendo só de olhar, minha avó quase não falava — chorava bastante, mas isso era um segredo dela.
   Raramente o sol e o Rio juntos permitem caminhadas, mas vem chegando o aniversário de dona E. e tudo parece ficar mais sóbrio, talvez de luto, talvez vigília. O fato é que nessa época o mundo só é palco nos canteiros onde tenham pequenas margaridas.
  É no sol brando de inverno que eu posso enxergar com clareza. Vejo o que importa: em toda esquina há ipês esplendorosos, que gritam cada vez mais alto entre concretos nadas acinzentados, assustando os caretas — ah, como eu queria que minha avó estivesse aqui pra rir.
   Porém, pouquíssimos são os que enxergam o mais importante: as pequeníssimas coisas que constroem a beleza, os átomos dos jardins, as sutilezas roxas que, junto do oxigênio, fazem a vida possível no planeta Terra.
   Eu não falo muito disso porque é preciso paciência de jardineiro para entender e olhos úmidos para ver; são algumas das muitas coisas que herdei de minha avó, junto do gênio forte e o nariz. Também é comum que eu chore às vezes — mas isso é um segredo agora meu

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