segunda-feira, 19 de outubro de 2015

15.07

   O Rio de Janeiro e eu temos muito em comum. Crescemos entre a permanência das montanhas e a mudança do mar. Nos fizemos em paradoxos. Somos tão grandes que mal cabemos em nós mesmos.
   Já fomos rivais. Sempre me foi ensinado como sentar, como sorrir, como permanecer sempre quieta. E essa cidade sempre foi pungente, caótica, livre. Eu somente a olhava pela janela, mas aos poucos me percebia refletida naquela confusão – ou seria a minha confusão refletida?
   Foi numa tarde quando eu atravessava para Ipanema, descalça, que meti meu pé num caco de vidro ainda sujo da cerveja anterior. A dor foi pungente, caótica, livre. Dali em diante eu e Rio de Janeiro estávamos unidas por um pacto de sangue.
   Não importa o quanto as águas de março ou as de qualquer outro mês tentem lavar, sempre haverá um pouco de mim naquela calçada; minha coluna vertebral está fincada no Arpoador: ele é quem me deixa de pé. Minha língua fala a língua do enredo da Portela. Minha carne está misturada aos sobrados do Centro e aos barrancos de uma favela qualquer – tudo prestes a desabar.
   Mas o que importa de mim está bem longe da terra firme – dizem que os capricornianos têm o pé no chão, mas já que nasci no Rio, os meus estão na beira do mar. E a minha alma em algum lugar dissolvida nas profundezas salgadas, longe da Baía de Guanabara. Talvez um pouco mais a Norte, quem sabe mais ao Sul. Vai saber... eu nunca me soube!
   Só sei que um dia vou-me embora. Não sei quando nem para onde. Não é por mágoa nem por dívida – as únicas que já tive estão na Lapa, mas são quitadas quando o tambor soa e os pés ainda estão nas ruas nos primeiros raios da manhã. Se vou-me embora é porque eu nunca coube entre a permanência das montanhas e a mudança do mar.
   Mas eu volto para o lugar que ainda guarde o meu sangue misturado com a cerveja alheia e o asfalto ardente. Volto para minha amiga e confidente, essa cidade que em algum lugar me esconde. Às vezes temos que rodar tanto para nos encontrar bem debaixo de nossos narizes. Um dia eu volto e me encontro aqui.

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