Já fomos rivais. Sempre me foi ensinado como sentar, como sorrir, como permanecer sempre quieta. E essa cidade sempre foi pungente, caótica, livre. Eu somente a olhava pela janela, mas aos poucos me percebia refletida naquela confusão – ou seria a minha confusão refletida?
Foi numa tarde quando eu atravessava para Ipanema, descalça, que meti meu pé num caco de vidro ainda sujo da cerveja anterior. A dor foi pungente, caótica, livre. Dali em diante eu e Rio de Janeiro estávamos unidas por um pacto de sangue.
Não importa o quanto as águas de março ou as de qualquer outro mês tentem lavar, sempre haverá um pouco de mim naquela calçada; minha coluna vertebral está fincada no Arpoador: ele é quem me deixa de pé. Minha língua fala a língua do enredo da Portela. Minha carne está misturada aos sobrados do Centro e aos barrancos de uma favela qualquer – tudo prestes a desabar.
Mas o que importa de mim está bem longe da terra firme – dizem que os capricornianos têm o pé no chão, mas já que nasci no Rio, os meus estão na beira do mar. E a minha alma em algum lugar dissolvida nas profundezas salgadas, longe da Baía de Guanabara. Talvez um pouco mais a Norte, quem sabe mais ao Sul. Vai saber... eu nunca me soube!
Só sei que um dia vou-me embora. Não sei quando nem para onde. Não é por mágoa nem por dívida – as únicas que já tive estão na Lapa, mas são quitadas quando o tambor soa e os pés ainda estão nas ruas nos primeiros raios da manhã. Se vou-me embora é porque eu nunca coube entre a permanência das montanhas e a mudança do mar.
Mas eu volto para o lugar que ainda guarde o meu sangue misturado com a cerveja alheia e o asfalto ardente. Volto para minha amiga e confidente, essa cidade que em algum lugar me esconde. Às vezes temos que rodar tanto para nos encontrar bem debaixo de nossos narizes. Um dia eu volto e me encontro aqui.
Só sei que um dia vou-me embora. Não sei quando nem para onde. Não é por mágoa nem por dívida – as únicas que já tive estão na Lapa, mas são quitadas quando o tambor soa e os pés ainda estão nas ruas nos primeiros raios da manhã. Se vou-me embora é porque eu nunca coube entre a permanência das montanhas e a mudança do mar.
Mas eu volto para o lugar que ainda guarde o meu sangue misturado com a cerveja alheia e o asfalto ardente. Volto para minha amiga e confidente, essa cidade que em algum lugar me esconde. Às vezes temos que rodar tanto para nos encontrar bem debaixo de nossos narizes. Um dia eu volto e me encontro aqui.
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